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“Penso, logo poluo”

Por Dr. Guilherme Raso *


“Penso, logo poluo”. O trocadilho com a máxima decartiana, de certa forma exagerado, se extrai de recentes artigos científios publicados pela revista Science. As publicações do periódico têm sido enfáticas ao apontar as emissões de carbono como o maior agente poluidor deste século, responsável, acrescentam, pelo odioso aquecimento global.

Até aí nenhuma novidade. O que vem acrescentar é a notícia de que grande parte das emissões de carbono é proveniente das nossas práticas cotidianas. Não quer dizer, contudo, que nossos lares emitam mais carbono do que as indústrias ou que nossos automóveis poluam mais do que as frotas das transportadoras. O recado é outro: o
homem, pelo simples fato de estar vivo, emi-
te carbono.

De fato, desde o momento em que nascemos até o fim de nossa existência nos alimentaremos, utilizaremos produtos e consumiremos combustível, todos produzidos mediante processos que emitem carbono na atmosfera.

A assertiva é singela, mesmo porque ninguém ignora a emissão de carbono decorrente do processo de industrialização e transporte dos alimentos por nós consumidos. A genialidade da constatação está no fato de que o controle das emissões não deve estar restrito aos processos de produção, ou seja, não são as indústrias e os transportes os únicos responsáveis pelo
aquecimento global. Nós, como consumidores, partilhamos essa responsabilidade.

A grande questão está na forma de controlar “nossas” emissões. Se não podemos deixar de nos alimentarmos, se não podemos abdicar dos meios de transporte, se não nos é possível viver sem produtos industrializados, como poderíamos contribuir para uma atmosfera com níveis toleráveis de dióxido de carbono?

A resposta é relativamente simples, qual seja, adotar práticas de consumo responsável, dentre elas erradicar o desperdício, reciclar, economizar energia, priorizar o uso do transporte coletivo, evitar o uso de combustíveis fósseis, consumir produtos orgânicos, entre tantas outras fartamente divulgadas pela imprensa.

Pode ser lugar comum sustentar a adoção do consumo responsável, mas nunca será demais repetir a lição, enquanto a prática não estiver condicionada. E o que constatamos é justamente isso. A prática não está condicionada. Ainda consumimos mais do que precisamos, utilizamos o carro quando poderíamos caminhar e insistimos em descartar aquilo que poderíamos
reaproveitar.

Não sejamos piegas ao ponto de exigir de todos uma prática uniforme. Há especificidades da vida privada a justiar a adoção de algumas medidas de consumo responsável, mas não outras. Não se prega, também, a abstenção de práticas culturalmente enraizadas, a abdicação do conforto e da boa mesa. Ao contrário, devemos manter nossos saudáveis hábitos, mas utilizar nossa criatividade, tão elogiada no exterior, para tornar esses hábitos o menos poluentes possível.

O importante, enfim, é cada um adequar seu cotidiano da forma que lhe for factível, tendo em vista preservar o planeta para as futuras gerações, promovendo, deste modo, a chamada justiça intergeracional. E neste ponto, diria o boiardo Serébrany, do romance de Tolstoi: “Deus traçou o caminho de cada um: o vôo do falcão não é igual ao do cisne, mas isso pouco importa, desde que cada um sirva a verdade e a justiça.”

* Dr. Guilherme Raso, é advogado e professor de Direito do Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix. Morador em um dos condôminos no Vale do Mutuca. www.promutuca.com.br • promutuca@promutuca.com.br • (31) 3581-1166

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