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Confissões de uma residente

Por Gisele Kimura

Confesso que tenho muita dificuldade para entender as leis e todo o arcabouço que as envolve. E ultimamente então, meus neurônios estão rodando em círculos sem saírem do lugar, ou melhor, estão dando marcha-ré tentando compreender o nosso Sistema Estadual deMeio Ambiente. Tomo o exempl mais recente com o qual estou relativamente envolvida: a questão do Loteamento Vila Castela 2, aqui no Vale do Mutuca, que vocês já devem ter ouvido falar. Lá do alto do meu terreno é só olhar para frente e constatar, dia após dia, o clarão marrom de terra que se abre após a passagem dos tratores. Estão abrindo uma estrada de acesso do loteamento, cuja licença ambiental tem sido questionada há anos, através de páginas e mais páginas de um vai-e-vem judicial que não ouso detalhar aqui, pois o conteúdo é altamente impróprio e indigesto para qualquer cidadão sensato.

Aos sábados e domingos escutamos o barulho dos tratores derrubando as árvores...e que árvores! Ali se encontra uma porção de Mata Atlântica que constitui um corredor ecológico importante para toda a região. Tenho vontade de chorar cada vez eu penso na leviandade com que se derruba uma mata dessas, para abrir acesso a um loteamento que nem se sabe se será aprovado! Não sei bem qual o trâmite legal que permite um absurdo desses, talvez um dia alguém possa me explicar uma razão plausível para que isso aconteça, mas antes disso acho que morro sem entender.

Temos aqui no Promutuca um advogado que se dedica exclusivamente a esta causa e vários outros colaboradores que têm doado seu tempo e empenho para fazer o trem andar nos trilhos de direito. Não estamos exigindo muito: apenas que as leis sejam cumpridas. Mas para nossa total frustração, o cumprimento da lei se tornou um objeto inatingível dentro de um labirinto de espelhos tortos, representados pelos diversos órgãos envolvidos, que se encarregam de distorcer cada fato a tal ponto que esse objeto se transforma em uma imagem irreal, quase uma utopia.

Temos também um sem número de documentos, atos e ofícios de nossas tentativas de fazer com que as leis sejam cumpridas, que evidenciam o total atabalhoamento das autoridades. É impressionante como elas têm atuado de forma contraditória entre si. Somos lançados de um lado para o outro, como se estivessem brincando de cabra-cega, de joão-bobo com a gente. E enquanto isso, árvores antigas, lindas, imensas, são derrubadas em segundos.

Daqui a pouco vão dizer que nem será preciso mais tanta discussão, que não haverá mais o que contestar, pois já não haverá mais mata a ser derrubada (toc, toc, toc na madeira). Vão inventar umas condicionantes quaisquer como pintar as calçadas das ruas para compensar o estrago consumado (ou talvez nem isso!). E dormirão tranquilos, certos de terem cumprido eficientemente sua tarefa de preenchermontanhas de papéis.

Jornal do Belvedere nº66 - Coluna da Promutuca - Página 2

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