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Sobre a revitalização de córregos e rios

Por José Walter Mendes Nogueira*

Folheando um número antigo do periódico MANUELZÃO, da época das últimas eleições para prefeito, em outubro de 2008, deparei-me com as opiniões de um conhecido ecologista, Rogério Sepúlveda e de um então candidato à  prefeitura de BH, Gustavo Valadares, sobre a revitalização de rios. De Rogério: "Revitalizar um córrego pode significar, para alguns, encaixotá-lo com concreto e deixá-lo sem vida.” E de Gustavo:
" Temos mais de 600 Km de córregos. Desses, só 30% são canalizados. Vamos resolver esse problema.” Parece que a maioria dos políticos brasileiros se alinha com o pensamento de Gustavo, uma vez que é muito comum a criação das chamadas avenidas sanitárias, em que um córrego ou ribeirão já bastante degradado pelas descargas de esgotos sanitários e industriais, ao invés deser recuperado, é canalizado com concreto,muitas vezes coberto e suas margens transformadas em avenidas.

Em choque com este posicionamento, a prefeitura de Seul, na Coréia do Sul, recentemente tomou espaço na mídia internacional com a notícia de que uma importante avenida da cidade fora destruída para permitir a revitalização de um rio que passava debaixo de sua estrutura de concreto. A reportagem mostrava o rio já revitalizado, com peixes e aves aquáticas no centro da cidade, e o depoimento de pessoas outrora incrédulas e que agora desfrutavam de uma nova área de lazer.

Também em viagem recente ao sul da França, pude observar como os rios e ribeirões têm lugar de destaque nas pequenas cidades (e mesmo nas grandes, como o Sena em Paris). São limpos, bem cuidados, piscosos, com suas margens gramadas, f oridas e arborizadas. Os principais cafés e restaurantes estão na região beira-rio, e conseguir uma mesa ao lado da margem é tarefa disputadíssima.

Mas não precisamos ir tão longe para vermos bons exemplos. Em Itaúna, há alguns anos a prefeitura local iniciou um processo de "revitalização " do rio São João, que corta a cidade, concretando suas margens no trecho mais central da cidade. Outro dia, fazendo uma caminhada na cidade, pude observar que a população não "contemplada” com a canalização do rio, resolveu ela própria, de forma espontânea e sem muito alarde, recompor a vegetação ciliar, com mudas nativas, grama e plantas decorativas. O resultado é que o rio, neste trecho, tornouse atraente para os caminhantes e crianças, e até alguns bares já colocam suas mesas nas margens sombreadas. Em contraste, a área canalizada encontra-se árida, com um curso d'água monótono, sem poesia e quase sem vida. O que esta comparação nos mostra é que as soluções ambientais passam mais pelo envolvimento dos cidadãos do que pelas decisões dos políticos, muitas vezes interessados nas verbas para as obras e no impacto eleitoreiro das mesmas.

Será que um dia teremos uma proposta de demolição do Boulevard Arrudas para vermos um rio de águas limpas, arborizado e cheio de peixes? Não sei. Mas tenho certeza que poderíamos cuidar melhor daqueles que ainda não foram canalizados.

* José Walter Mendes Nogueira é morador do Condomínio Village Terrasse

Jornal do Belvedere nº71 - Coluna da Promutuca - Página 2

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