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Quanto custa uma água?

Por Gisele Kimura

Dias atrás tive a oportunidade de fazer algo que adoro. Trabalho com águas subterrâneas e uma das atividades que realizamos é um cadastro de usuários de águas subterrâneas, em poços tubulares, cisternas ou nascentes. Este é um serviço que particularmente me dá muito prazer. Tenho a chance de conversar com pessoas, normalmente em zonas rurais, esentir como é a sua relação com a água.

Nas cidades quase sempre temos água encanada, seja da prefeitura ou da concessionária, e pouco nos preocupamos em saber a sua procedência. Já ouvi muitas crianças acharem que a água vem da torneira, no máximo da parede. No campo a realidade é bem diferente. Normalmente se capta água de uma nascente ou de um poço raso, tipo cacimba. É verdade que muitas vezes as condições são bastante precárias, sem cuidados sanitários para assegurar água de boa qualidade. Já vi poços dentro de chiqueiros, ao lado de fossas, vacas bebendo água ao lado do cano da captação. Porém, sempre se sabe quando há risco de faltar, quando virá mais turva, quantas braçadas é necessário para erguer um balde.

Em uma viagem que fi z no semi-árido, na zona rural era realmente notável o valor que se dava à  água que bebiam. As pessoas faziam questão de mostrar um copo de sua água, com grande orgulho, comoquem exibe um tesouro precioso. Já na sede do município, qual foi minha surpresa ao saber que o consumo per capita era altíssimo, mais do dobro do recomendado pela ONU para a manutenção de uma vida saudável. O contraste era muito impressionante e o fato me chamou atenção. Neste município, a água também vinha de poços, mas a cobrança ainda era feita por estimativa, eram poucos os hidrômetros instalados. Assim, havia pouca preocupação com o desperdício.

Costuma-se dizer que só se muda a atitude quando pesa no bolso. Eu concordoparcialmente. Acho justo que se pague proporcionalmente ao que se consome, mas para mim mudança de atitude é muito mais uma questão de afeto do que de dinheiro. Se cada um realmente soubesse a dádiva que é ter água limpa em casa, não a trataria como um mero bem de consumo, uma troca mercantil. Talvez nem seja necessário saber exatamente de onde vem. Vem da terra, vem do ar, desde sempre. O preço que pagamos pela água é meramente simbólico, pois não há dinheiro no mundo que pague o valor que a água tem.

Jornal do Belvedere nº69 - Coluna da Promutuca - Página 2

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