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Foliões silenciosos

Por Gisele Kimura

Na última hora, desistimos de viajar no carnaval e fi camos por aqui mesmo, curtindo a calmaria da cidade. Ah, sábia decisão! Nesse último ano ou dois tenho sentido um enorme prazer em andar pelasruas vazias e silenciosas nas épocas de férias e feriados. Existe um ditado japonês que diz que os melhores amigos são aqueles que compartilham o silêncio. É verdade, enquanto o silêncio é incômodo é porque não nos sentimos íntimos o sufi ciente para dividirmos a simples presença de ser, sem ter que fazer nada. Então sinto que nestes dias de quietude me torno mais cúmplice da cidade em seu descanso, como naqueles dias de praia com chuva em que a beleza de ambos, praia e chuva, tomam conta da gente.

Bem, mas comecei a falar disso tudo para ressaltar o contraste cada vez mais intenso da vida na cidade, com seus problemas urbanos que fazem com que todo mundo queira sair correndo na primeira oportunidade. E uma das coisas que mais incomoda o dia-a-dia do morador urbano é o trânsito, essa coisa que deixa todo mundo insano e irritado. O trânsito é uma unanimidade: todo mundo odeia, xinga, mas quase ninguém se sente capaz de modifi cara situação. Aqui nos nossos bairros mesmo daqui a
pouco não conseguimos sair de casa. Nossa região é um dos vetores de crescimento da RMBH e não há como combater o fato de que a população cresce,migra e as pessoas precisam de locais para habitar. As
cidades desde sempre cresceram de modo desorganizado, sem planejamento algum. Mas hoje em dia com tanto conhecimento e tantas instituições não é possível que a expansão urbana passe por cima de todo e qualquer princípio de razoabilidade.

Temos todos acompanhado de modo estarrecedor as mudanças no Vale do Sereno, com suas torres em construção, nos perguntando o que vai ser daqui a uns anos nessa região com tantas pessoas a mais morando, e com tão precária malha viária. Não, não se trata de gritar "estátua” e congelar e a região assim como está (apesar de secretamente sonhar com isso, quem não gostaria?). Trata-se apenas de utilizar os instrumentos de gestão pública para os fi ns para os quais foram planejados.

Pelo pouco que sei, o Plano Diretor de Nova Lima, que é o instrumento básico da política de desenvolvimento do município, apesar de tantas promessas iniciais, foi modificado a toque de caixa para permitir a urbanização vertical do Vale, sem considerar minimamente alguns pressupostos básicos: a região tem importância fundamental como corredor ecológico de Mata Atlântica, além de não possuir a infra-estrutura mínima necessária para abrigar uma ocupação deste tipo. Continuo acreditando, talvez utopicamente, ser possível convivermos de modo mais harmonioso com o meio, sem termos que destruir tudo à  nossa volta para podermos nos instalar majestosamente em nossos tronos solitários. Nãoseria tão mais razoável planejarmos uma ocupação menos densa nessa região que abriga uma mata rica, compatível com a sua topografi a irregular e a difi culdade de instalar vias públicas para grande número de veículos? Ou será que estão planejando modernas redes de transporte público e ainda não contaram para ninguém? Os anúncios dos empreendedores mostram o verde da Mata Atlântica e prometem um Paraíso Perdido, mas quem chegar corre o risco de se deparar, em um futuro breve, com o caos urbano de que tanto pretendia fugir.

Bem, mas apenas por hoje, vou me permitir não pensar no futuro e aproveitar os últimos minutos desse carnaval, em que posso desfi lar pelas avenidas da cidade e desfrutar de sua beleza que ainda resiste em paz.

Jornal do Belvedere nº67 - Coluna da Promutuca - Página 2

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