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Mamíferos do Vale do Mutuca

Com aproximadamente 652 espécies, correspondentes a 12% do total, o Brasil possui a maior diversidade de mamíferos do planeta. O país é um verdadeiro celeiro da megabiodiversidade, uma vez que detém uma grande heterogeneidade ambiental, ou seja, um elevado número de ambientes com alta diversidade biológica.

O Vale do Mutuca, especificamente, localizado em Nova Lima, na Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH), possui uma APE – Área de Proteção Especial, e abriga diversas espécies de mamíferos, entre elas marsupiais como as cuícas (Caluromys philander, Gracilinanus agilis), roedores (Oxymycterus delator, Nectomys squamipes, o rato d´agua), morcegos (Histiotus velatus, Carollia perspicillata), carnívoros como a irara ou papa-mel (Eira barbara), quatis (Nasua nasua), e, inclusive, espécies carnívoras ameaçadas de extinção, como a jaguatirica (Leopardus pardalis) e a onça-parda (Puma concolor).

Os carnívoros são predadores e importantes reguladores de populações de diversas espécies, pois atuam como elemento no equilíbrio ecológico. Porém, além da função reguladora dos carnívoros, diversas espécies de mamíferos agem como recompositores da floresta, já que, alimentando-se de frutos e sementes, realizam a chamada “zoocoria” ou dispersão de sementes por animais, contribuindo para a recomposição das mais diversas populações de espécies vegetais. Animais como os morcegos, quatis, cachorros-do-mato, diversas espécies de roedores, primatas, são alguns dos principais agentes dispersores presentes na região do Vale do Mutuca, que por englobar também área próxima ao Parque Estadual da Serra do Rola Moça, constitui um corredor ecológico de suma importância para o fluxo gênico entre as espécies, disponibilidade de recursos e habitat.

Atualmente o Brasil e o mundo passam por um acelerado processo de extinções em massa. A fauna e flora vem sendo depauperadas rapidamente, o que ocasiona um acentuado declínio de populações nos mais diversos ambientes. A destruição de habitat e a fragmentação são dois dos principais causadores de extinções, de acordo com Machado e colaboradores (2008), que listam no chamado “Livro Vermelho de Espécies Brasileiras Ameaçadas de Extinção”, cerca de 69 espécies de mamíferos e seus respectivos status de ameaça no Brasil.

O Vale do Mutuca insere-se em uma área de transição Cerrado/Mata Atlântica. A Mata Atlântica, devastada ao longo de mais de 500 anos de extensa ocupação territorial no Brasil, já teve cerca de 93% de sua área original destruída. Minas Gerais, de acordo com o último relatório da Fundação S.O.S Mata Atlântica lançado neste ano, tem apenas 9,64% de Floresta Atlântica restante

Mesmo estando inserido no Quadrilátero Ferrífero, região de altíssima relevância biológica e que sofre forte atividade antrópica, seja pela mineração ou mesmo pela expansão urbana em uma crescente cada vez maior, o Vale do Mutuca apesar de estar ao lado de grandes núcleos urbanos, sobrevive e convive sob pressões e ameaças. A manutenção das áreas verdes na região do Quadrilátero é de máxima prioridade não só pela regulação térmica e por seu indiscutível papel no seqüestro de carbono da atmosfera, como também para a proteção das espécies de mamíferos da região, que abriga um dos pouquíssimos remanescentes de Mata Atlântica próximos à capital.

Guilherme Leandro Castro Corrêa,
biólogo e mastozoólogo, vice-presidente do Grupo Bocaina de História Natural e Educação Ambiental.