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Continuaremos saudáveis em um mundo doente?

Seminário

Quando, em meados de fevereiro, assumi a autoria deste artigo, pensava em escrever sobre as chuvas históricas que ocorreram neste verão em Minas e em todo sudeste, bem como sobre outros eventos climáticos extremos, a exemplo dos incêndios na Austrália e sua relação com o aquecimento global, mas no meio do caminho surgiu o COVID-19. E parece que ninguém fala de outra coisa, mas não estaria tudo isso relacionado? COVID-19, chuvas, incêndios...


O que escrevo a seguir são apenas reflexões que faço a partir de leituras de boas fontes, mesmo porque há muito ainda a ser esclarecido pela ciência acerca desta pandemia.


A Organização Mundial da Saúde (OMS) relata que um animal é a provável fonte de transmissão do corona vírus de 2019 (COVID-19), que infectou milhares de pessoas em todo o mundo e pressionou a economia global. Os corona vírus pertencem a um grupo de vírus conhecido dos humanos desde a década de 1960, causa comum de infecções respiratórias brandas a graves de curta duração; nesse grupo estão os vírus SARSr-CoV, que causa a síndrome respiratória aguda grave que apareceu em 2002 na China e  a SARS-Cov-2, que causa a COVID-19, a atual pandemia que tem assolado todos os continentes. Nos últimos anos, várias zoonoses (doenças transmitidas de animais para seres humanos) foram manchetes no mundo por causarem epidemias ou ameaçarem causar grandes pandemias, como o Ebola, a gripe aviária, o Zika Vírus, a febre amarela entre outras.


Segundo a OMS, os morcegos são os mais prováveis transmissores ​​do COVID-19. Morcegos são portadores do vírus, mas não adoecem dele, por causa de seu especial metabolismo. Portanto, provavelmente transmitiram para outro animal hospedeiro, que cientistas chineses acreditam ser o pangolim (espécie africana apreciada como iguaria na China pelo sabor e por suas ditas propriedades medicinais), vez  que o vírus da COVID-19 humana é 99% igual ao vírus que acomete o pangolim, e dele portanto para os humanos. Essa tripla passagem é rara, pois o curto espaço de vida do vírus exige que os três animais: o morcego, o pangolim e o humano, estejam juntos no mesmo tempo e lugar. Aí entra o mercado de Wuhan, onde animais vivos, domésticos e selvagens de todo o mundo, ficam empilhados em engradados, um em cima do outro, de modo a propiciar a contaminação via secreções, sendo então comprados e consumidos por humanos às vezes crus, ou mal cozidos.


O organismo que causa a COVID-19 está há tempos no meio ambiente, provavelmente alojado em morcegos nativos de cavernas intocadas, segundo afirma o pesquisador Allan Carlos Pscheidt, doutor em Biodiversidade Vegetal e Meio Ambiente. Com a crescente urbanização e consequente invasão humana o vírus quebrou seu ciclo natural e alcançou outros animais, como o homem, cujo organismo ainda não está preparado para combatê-lo.


Segundo Andrew Cunningham, Professor de Epidemiologia Selvagem na Sociedade Zoológica de Londres, a transferência interespécies decorre da atividade humana: quando o morcego está estressado por ser caçado, ou pela destruição de seu habitat pelo desmatamento, seu sistema imunológico enfraquece e tem dificuldade de controlar tais patógenos; a infecção viral aumenta e é excretada. O ‘stress’ porque passam os animais selvagens nos mercados de animais vivos como em Wuhan leva à excreção mais acentuada dos animais contaminados, que atinge outros animais também engaiolados, nervosos e estressados, com menor resistência. A conclusão dos cientistas é a seguinte: a culpa não é dos morcegos, do pangolim ou de qualquer animal. A origem do problema está na maneira com a qual interagimos com as outras espécies levando à disseminação pandêmica do patógeno; e o COVID-19 talvez seja o grande e incontestável sinal de que a degradação ambiental pode matar os humanos com rapidez e que a atual catástrofe pode se repetir e ainda de forma mais grave. A destruição dos habitats é a causa, de modo que a preservação e restauração deles é a solução.   


Conservacionistas alertam que os morcegos são essenciais para o funcionamento dos ecossistemas. Os morcegos insetívoros comem grandes quantidades de insetos, como mosquitos e pragas agrícolas, enquanto os morcegos que se alimentam de frutas polinizam árvores e espalham suas sementes. Se entendermos os fatores de risco, podemos tomar medidas para impedir (a propagação) sem afetar negativamente os animais selvagens. E cientistas afirmam que é imperativo que estas espécies não sejam abatidas por meio de medidas equivocadas de “'controle” de doenças. Mas precisamos acabar com a prática de reunir animais de diferentes países, habitats distintos, estilos de vida diversos, aquáticos, terrestres, arbóreos misturados em uma espécie de caldeirão, como o mercado de Wuhan.


Voltamos à minha pergunta original: chuvas, incêndios, pandemia, não está tudo isso relacionado? Papa Francisco, dia 25 de março, em um impressionante cenário: a Praça São Pedro completamente vazia, nos chamou atenção para a ilusão de “que continuaríamos sempre saudáveis num mundo doente”.


No momento de sofrimento e medo, em que “o mundo cai de joelhos pela pandemia”, poderíamos diante da desaceleração da economia trazida pela COVID e seus efeitos regressivos rápidos sobre a poluição do ar e a concentração de dióxido de carbono, a redução do ruído, despoluição de rios e mares entre outras benesses ambientais, atentar para o fato de que a mudança nos hábitos de consumo, a redução no uso de combustíveis fósseis, uma nova dinâmica na produção de bens e serviços, a preservação de ecossistemas essenciais e o fim do tráfico e da comercialização de espécies silvestres podem produzir resultados duradouros e benéficos para a humanidade e, melhor para o planeta. É tempo de reclusão e reflexão. Somos a primeira geração consciente de que seus atos estão destruindo o planeta e as espécies animais, inclusive a sua própria espécie e talvez sejamos a última geração que possa fazer algo a respeito. O mundo que conhecíamos antes desta pandemia certamente não será o mesmo, mas sairemos melhores deste angustiante momento?

Maria Cristina Brugnara Veloso
Conselheira da Promutuca